“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”
Um pequeno barco, num vasto oceano de águas atormentadas. Com você apenas, o pendor e a agitação do couvés se tornam ainda piores — mais e mais ondas açoitam o único lugar onde você sobrevive. E se cair, e você se afogar? E se isto for o último momento que viverá? E se…?
Prender-se a qualquer parte mais estável, dar um passo, um respirar, um hesitar: range a madeira frágil e putrefada, vêm as ondas fulminantes, e sobretudo os pensamentos de que tudo aquilo pode ruir.
É possível ouvir o rugir da água e de suas correntes ameaçando tudo em que você se segura e que você tem, e, ao olhar para o horizonte em busca de qualquer porto seguro, âncora ou ilhota que haja, o que vem em seu auxílio? Aparentemente nada. Para você, ninguém.
O Barco da Solidão
Um pequeno barco de nome “solidão”. Agindo de dentro para fora dos corações, cada vez mais se torna banal à mente e aos sentimentos.
Isso compromete tudo o que é interno à vida, mas também tudo o que nos circunda: planos, família, relacionamentos, afetos e desafetos, promessas e, sobretudo, almas.
Almas que um dia se encontravam à nossa volta, mas que não mais estarão, ao passo que dermos largos passos em direção a um barco à deriva, sem qualquer repouso, sem qualquer destino, denominado solidão. Tão intrínseca, ela coexiste com a paz, com a alegria, com os sonhos, com as amizades e com o amor. Destrói a paz, destrói a alegria, destrói os sonhos, destrói as amizades e, por fim, destrói o amor.
Assim, viver à base da solidão nos faz viver dormentes à degradação e ao isolamento que a caminhada solitária nos gera. Inclusive, na pretensão de lidarmos superficialmente com a solidão dos outros, damos novos nomes à solidão:
- “Ah, ele nunca vem com a gente. Deixa isso pra lá”;
- “Ela é assim mesmo”;
- “Ela se isola porque quer. Ninguém a obriga a nada”.
Nomes que enganam, nomes que dissimulam aquilo que, é muito mais profundo e enraizado, pode estar ocorrendo ao coração de tantos. Negligenciados, de fato podem estar sob as dores e sob os açoites de águas de tormenta, de águas que encobrirão esses barcos, e os afogarão, se tão somente não nos tornarmos conscientes de que a vida de Jesus, exemplo e modelo à nossa conduta e ao nosso coração, nunca foi uma vida de ignorar tempestades, tampouco os barcos que se perdem no meio delas (leia: Jonas 1, Mateus 14, Atos 27).
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A Solidão da Cruz
Reconhecendo Jesus como nosso modelo, reconheçamos também o contexto de solidão da cruz, à qual Ele foi submetido pelos propósitos de Deus para salvação da humanidade (veja: Isaías 53).
“Desde a hora sexta até à hora nona, houve trevas sobre toda a terra. Por volta da hora nona, clamou Jesus em alta voz, dizendo: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni’? O que quer dizer: ‘Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?’” (Mateus 27)
Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?
Jesus Cristo, pregado àquela cruz, bradou o primeiro verso do Salmos 22, compondo o sentido pleno do salmo escrito pelo seu autor, Davi: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” O contexto da solidão da cruz é um contexto de esquecimento e negação.
Jesus, até aquele momento, havia sido abandonado e esquecido por quase todos os que eram seus discípulos, incluindo os apóstolos, e que o ouviam e aprendiam com ele diariamente (o povo).
Mesmo Pedro, um apóstolo, negou-o por três vezes seguidas. A Bíblia narra que poucas pessoas, apenas algumas mulheres e um de seus apóstolos, permaneceram com Ele até o fim. Tal é o contexto do abandono do Salvador, que culmina, nas Escrituras, na recitação do verso do Salmos 22.
Deste salmo, à semelhança de Jesus, poderemos também compor o sentido da nossa solidão, sentido que o Espírito de Deus deseja gerar em nós, como também compreender o propósito deste barco da solidão para com nossas almas. Vejamos o Salmo 22.
Davi escreve no v. 11: “Não te distancies de mim, porque a tribulação está próxima, e não há quem me acuda”.
Deus aqui nos traz um ensinamento: necessitamos entender a nossa dor, a dor da solidão. De forma geral, assumirmos que não há quem nos ajude frente aos problemas é como dizer à nossa própria alma que ela está sozinha em meio à tempestade.
É tomar para si realidades que reavivem a ferida que ora podia estar adormecida, e é isto que o Senhor quer de nós — se estamos em solidão, que oremos a Deus a nossa solidão. Para nós, clamar a Cristo também significa que, olhando para nós mesmos, entreguemos a Deus tudo o que somos, como escrito no v. 10: “A ti me entreguei desde o meu nascimento; desde o ventre de minha mãe, tu és meu Deus”.
Se nos entregamos, também entregamos nossas dores e aflições — erros de pessoas que nos causaram mal, que nos insultaram, difamaram, negligenciaram.
Quer por traumas, quer por faltas, se nos sentimos sós, desamparados, precisamos ver que, se cremos em Cristo, nunca estivemos ou estaremos sozinhos.
“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem-presente nas tribulações” (Salmo 46).
A solidão não é lugar de permanecermos calados perante Deus, mas de gritarmos a Ele por socorro
Você não está só
Não há tempos de abandono em Deus. Assim, tudo o que não oramos ao Senhor é o que reprimimos, e até quando viveremos reprimidos?
Há um Caminho para entendermos nossa dor da solidão, e Ele é Jesus.
“Pois não desprezou, nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu, quando lhe gritou por socorro” (v. 24).
O salmista declara que o Senhor ouviu o aflito em sua dor (dor de ignomínia) quando este gritou por socorro. A solidão não é lugar de permanecermos calados perante Deus, mas de gritarmos a Ele por socorro.
A paralisia do isolamento tende a nos calar, à medida que, quanto menos pessoas vemos ao nosso derredor, mais parecemos ter a ideia de que ninguém nos ouvirá.
Isto, porém, é mentira, pois o Senhor não oculta o Seu rosto daquele que lhe busca auxílio de fé e coração sinceros. “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito, não o desprezarás, ó Deus” (Salmos 51).
Se não nos esquecermos do Senhor, a solidão será lugar de exercício do quebrantamento e da contrição da alma. Há um Caminho para gritarmos por socorro a Deus, e Ele é Jesus.
Jesus, contudo, não só nos assegura o presente, mas também o nosso futuro.
A solidão, assim, é lugar de promessas de boas comunhões. Se estamos em processo solitário, e sobretudo sob o governo de Cristo, também podemos ter certeza de que há pessoas que não devem estar ali, e por isso não estão.
Podemos ter certeza de que há pessoas que deverão estar conosco, e que virão, e que, com elas, faremos votos, na grande congregação, com o temor do Senhor nos nossos corações, como se afirma no v. 25.
Viveremos tempos de temor e amor mútuo, em que os relacionamentos não mais nos isolam como ilhas, mas nos integram.
Há um Caminho para vivermos as promessas futuras, e Ele é Jesus.
Para isso e quaisquer outras questões, necessitamos, sempre, de Jesus em nossas almas: aceitar, amar e viver quem Ele é. Necessitamos do amor por meio do qual Ele mesmo se entregou por nós, para nos salvar das trevas.
Nestas, inclui-se o barco à deriva de nome solidão, o qual acomete a nossa relação com o mundo e com os outros. E qual maior elo, no amor, de uns para com os outros no Senhor?
O elo do propósito de salvação, pois, sabedores de que, em nossa solidão, apenas Jesus estava lá a nos acudir, cumpriremos o último verso do Salmos 22, que proclama:
“Hão de vir anunciar a justiça dele; ao povo que há de nascer, contarão que foi ele quem o fez”.
O propósito da solidão? O cumprimento dos propósitos de salvação para nossas vidas e, sobretudo, para a vida daqueles que amamos e amaremos, para a eternidade.
Que Deus te abençoe,
Guilherme Formoso.
