A Esquecida Prática da Meditação

Primeiramente, precisamos esclarecer sobre qual meditação iremos tratar no presente artigo.

Sendo assim, não quero me referir à meditação oriunda de práticas orientais como o budismo e outras, cuja busca é de um estado de consciência transcendente das ilusões, conhecido como iluminação.

A palavra meditação, no contexto que trazemos aqui, diferentemente da definição acima, é uma autorreflexão, um autoexame do coração, dos caminhos, condutas, e da vida em geral, segundo o que nos diz a Palavra de Deus.

\”A meditação cristã envolve um interrogatório cuidadoso de nosso coração…\”

Ao contrário do que ensina a meditação oriental, de que o homem deve dissolver a sua mente e se desconcentrar da realidade, a meditação cristã envolve um interrogatório cuidadoso de nosso coração, uma análise de si mesmo, com o intuito de verificar e apurar como tem sido a nossa vida.

A meditação cristã teve uma relevância especial nos puritanos, que eram cristãos piedosos integrantes do movimento chamado puritanismo, nos séculos XVI e XVII na Inglaterra, que buscavam reformar e renovar a igreja da Inglaterra.

Muitos célebres puritanos se dedicaram em aprofundar e esmiuçar o tema da mente, coração e consciência, o que resultou em obras valiosíssimas para os cristãos. Dentre os puritanos que escreveram sobre o tema, destacam-se Richard Perkins, Richard Baxter, John Dod, Jonathan Edwards, John Bunyan, entre muitos outros.

Meditação cristã, em outras palavras, é sondar a nossa consciência.

Analisamos nossa mente e coração a fim de termos uma consciência instruída e purificada pela Palavra de Deus. Para os puritanos já mencionados, a consciência \”é o órgão mental do homem através do qual Deus o impressiona com Sua Palavra\”¹. É o poder de compreensão de nossas almas, que examina como estão as coisas entre Deus e nós.

O reformador Martinho Lutero, notável pela prática constante da meditação cristã, declarou em Worms: \”Minha consciência está cativa à Palavra de Deus. Não posso nem quero me retratar de coisa alguma, pois ir contra a consciência não é correto nem seguro (…)\”².

Quando refletimos sobre o assunto da meditação cristã, podemos ser tentados a pensar que de fato não há muito a ser descoberto, afinal de contas, se tem alguém que andamos todos os momentos do dia, e está sempre junto de nós, somos nós mesmos e, portanto, conhecemos tudo sobre nós.

É nesse aspecto que deslizamos. Por achar que já somos conscientes de todos os nossos atos, pensamentos e intenções, descuidamos que existem também certos erros omitidos, ou algum caminho mau escondido dissimuladamente. Alegoricamente, seria como um ronco noturno, onde quem ronca provavelmente não o sabe, mas sim quem está ao seu lado.

Todo cristão que passou pelo processo espiritual da regeneração, busca com todo o seu ser honrar, obedecer, servir e glorificar a Deus, o seu Senhor.

Todavia, por causa do pecado que jaz no coração do homem desde a Queda, é fato que muitas vezes falhamos nessa busca de agradar a Deus.

Mas, novamente, se o cristão é realmente convertido, tal pecado será visto como uma ofensa ao seu Deus, e ele prontamente se humilhará, confessando sua iniquidade, e buscando em Cristo o perdão.

Acontece que nem sempre o pecado nos aparece de forma visível, gritante, exterior. Existem ocasiões onde, para se detectar algum pecado íntimo em nós, é necessário um sério e acurado exame de si mesmo.

Apesar de parecer difícil e subjetivo tal exame, tendo em vista que não temos um espelho para o coração, onde podemos detectar suas mazelas e segredos, há um caminho que todos podemos percorrer para nosso autoexame, que é compararmos a nossa vida com o que diz a Palavra de Deus. Como vemos no primeiro salmo do saltério: \”Mas o seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite\” (Sl 1.2).

Para isso, por mais óbvio que seja, é fundamental ler a Palavra de Deus. Quando lemos a Bíblia, devemos atentamente observar se nos conformamos e concordamos ao padrões e princípios descritos nela.

Ao lermos cada preciosa linha dessa poderosa revelação de Deus para nós, é primordial ponderarmos se há harmonia ou não entre a Palavra e a nossa vida.

Devemos sempre nos perguntar:

  • Será que eu realmente vivo dessa maneira?
  • Será que o que eu acabei de ler está presente em minha vida?

Conforme nos ensinou o apóstolo Paulo em sua carta ao jovem Timóteo, \”Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra\” (2Tm 3.16,17). Note, uma das finalidades da Palavra de Deus é a nossa própria repreensão e correção, e só conseguimos usufruir desse objetivo se considerarmos firmemente a prática da meditação diária.

Um dos autores que mais ensinou acerca do tema da meditação do coração, nos aconselha sobre isso:

\”Quando ler histórias da Bíblia sobre os pecados e sobre os culpados, faça uma autorreflexão enquanto avança na leitura. Pergunte a si mesmo se é culpado de pecados semelhantes. Quando ler como Deus reprovou o pecado de outros e executou julgamentos por seus pecados, questione se você merece punição semelhante. Quando ler os exemplos de Cristo e dos santos, questione se você vive de maneira contrária aos seus exemplos. Quando ler sobre como Deus louvou e recompensou seu povo pelas suas virtudes e boas obras, pergunte se você merece a mesma bênção. Faça uso da Palavra como um espelho pelo qual você examina cuidadosamente a si mesmo “e seja um praticante da palavra\” (Tg 1.23-25)³.

Além disso, outras diretrizes são úteis no caminho da autorreflexão, como observar se pessoas maduras e piedosas evitam praticar algo que você comumente pratica, ou perguntar aos que nos cercam com proximidade, como amigos e família, o que têm a dizer sobre nós, e verificar se há fundamento e veracidade nas alegações.

Em um mundo de tanta pressa, compromissos, informações, não é raro negligenciarmos a avaliação própria de como foi o nosso dia, o que falamos ou deixamos de falar, o que pensamos, ouvimos, fizemos, e nesse sentido precisamos voltar à esquecida prática de sondarmos nossa consciência através da meditação cristã, conhecendo-nos a nós mesmos, como quem está na presença de Deus (coram Deo, como disse Lutero), sujeitos sempre a Sua Palavra.

Pb. Raphael Gomes

Fontes:
¹ Entre os Gigantes de Deus, J.I. Packer
² Heróis da Fé, Orlando Boyer
³ Sondando sua Consciência, Jonathan Edwards